quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O covarde, a sobrevivente e o camponês

Quem os visse nesse instante, jamais poderia imaginar como tudo começou. Inesperado, improvável! Mesmo agora suas chances não eram boas, mas eles lutavam bravamente por suas vidas e por milhares de outras que mesmo sem saber deles dependiam...

Tudo começou há cinco anos atrás, na praticamente inofensiva vila Dente de Pedra. Honam, um desconhecido bardo procurava pouso depois de uma desgastante viajem desde as planícies de Quiméria. Humano, de linhagem bárbara, envolto em várias sedas coloridas e com um turbante em sua cabeça era uma figura que muito se destacava em meio a bucólica paisagem do vilarejo.

A vila diante de seus olhos não era de todo ruim, provavelmente não chegava a ter sessenta habitantes. Uma venda, meia dúzia de casas e uma taverna. E essa última fazia toda a diferença. Música, cerveja e descanso! Tudo que Honam poderia querer nesse fim de tarde. Com alguma sorte ele poderia, até, encontrar uma plateia para sua bela trompa alpina.

E foi o que aconteceu. Bebeu, tocou e pode descansar. Algo na vila o atraía, havia gostado do lugar. Decidiu ficar ali algum tempo. Mas a ideia não foi boa, a vila era pacata demais, pequena demais e a única coisa minimamente engraçada ali eram os palavrões que Gunar gostava de gritar na estranha língua abissal.

Gunar, a proposito, era um camponês nascido em Dente de Pedra. Dotado de enorme força física era tido como uma espécie de protetor da vila. Quase sempre se vestia de negro e não era bem educado. Ele gostava de duas coisas: cozinhar e beber, sendo quase imbatível nesse último quesito. Passava muito tempo na taverna e por isso mesmo logo se tornou companheiro de Honam em suas noitadas.

Mas ouvir palavrões em abissal não era suficiente para manter Honam ali. E ele já estava planejando sua despedida, mas algo o fez mudar, temporariamente, de ideia. Naquela tarde, um anão chegará muito ferido. Era um soldado da guarda imperial, acabara naquele estado devido a uma emboscada. E viajar por estradas repletas de ladões era algo que definitivamente Honam não estava disposto a fazer.

O nome do anão era Tordeck, e ele definitivamente precisava de cuidados, mas não corria o risco de morrer. Mesmo assim ele perguntou aos camponeses se não haveria por ali algum clérigo ou curandeiro que pudesse ajudá-lo. Mas não havia.
Bem na verdade havia uma curandeira na região, mas não era alguém a quem se pudesse recorrer. Era a última sobrevivente de uma tribo de amazonas e vivia sozinha a muitos anos. Vinha raramente a vila. Conseguia alguns suprimentos em troca de pequenos trabalhos e logo desaparecia. Havia muito tempo que não era vista e ninguém tinha ideia de quando voltaria.

O nome da curandeira era Ária, e ela vivia muito atormentada nos últimos tempos, pois começou a ter pesadelos constantes sobre um tema recorrente. Ela sempre sonhava que estava em uma caverna escura cercada de seres estranhos. Um desses seres vinha matá-la usando uma adaga negra, que emitia uma fraca luz azul. Porém ela nunca chegava a morrer, pois uma sombra de aparência maligna e de idade imemorável a levava antes que o golpe final fosse dado.

Muito angustiada, Ária decidiu que precisava de uma bebida, o que significava ir àquela insignificante vila. Então, ela juntou suas coisas e foi. Chegando lá, se dirigiu diretamente a taverna e logo percebeu algo diferente. 

"Música!" - pensou - "Minha estadia aqui não será tão ruim."

Ao entrar na taverna, continuou se surpreendendo, pois ali havia um anão e um sujeito que, a ela, parecia um palhaço envolto em roupas coloridas tocando um instrumento que ela nunca tinha visto.

"Uma caneca grande da cerveja mais forte que você tiver!" - pediu, sentando-se em uma mesa próxima aos forasteiros.

Grande foi a alegria de Tordeck ao ver Ária entrar na taverna. Apesar da aparência selvagem, ela tinha um porte invejável e empunhava um lança. Era claramente uma guerreira, algo que ele precisava no momento.

"Venha tomar uma cerveja conosco." - disse Tordeck dirigindo-se a Ária.

E ela foi, juntando-se a Tordeck e Gunar (que também estava ali). Após algumas cervejas e muita conversa Tordeck propôs:

"Como alguns de vocês já devem saber sou um soldado da guarda imperial. Atualmente estou em uma missão como mensageiro, mas infelismente meu grupo foi atacado por ladrões e só eu sobrevivi. Preciso chegar a cidade de Corvim. Vocês gostariam de me acompanhar? Serão bem recompensados!"

"Não estou interessada." - afirmou Ária.

A conversa interessou Honam, que tocava sua trompa alpina a certa distância. Era uma boa oportunidade de sair daquela cidade, mas a negativa de Ária era um problema. Sendo assim ele parou de tocar e se dirigiu ao grupo dizendo:

"Bem pessoal, até mais, vocês já beberam demais e não estão mais prestando atenção a minha música."

"Não estou bêbada." - retrucou Ária.

"Pois acho que você não aguenta outra." - continuou Honam, vendo que tinha conseguido seu objetivo de provocar a amazona.

"Ainda posso beber mais que qualquer um aqui." - afirmou ela.

"Pois aposto que não consegue. Quer apostar?" - disse Honam.

"Aceito  a aposta, bardo. Agora o que vamos apostar?"

"Então aposte comigo, caso você perca só o que quero é sua companhia até Corvim." - disse Tordeck, percebendo a intensão do bardo.

"Mas se eu ganhar quero cinquenta moedas de ouro. Ainda está disposto a aceitar?"

"Feito!" - respondeu Tordeck, mesmo não tendo cinquenta moedas.

Ária foi a primeira a cair. E ali começavam suas aventuras, em direção a cidade de Corvim.

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